Ação oculta dos espíritos sobre os homens: Revista Espírita, maio de 1863

Ação oculta dos espíritos sobre os homens: Revista Espírita, maio de 1863.

(…) Se, para os habitantes de Morzine, o desconhecido que interfere é o diabo é porque lhes disseram que era o demônio e eles só conheciam isto. Sabe-se, aliás, que certos Espíritos de baixo nível divertem-se em tomar nomes infernais para amedrontar.

A este nome substituí em sua boca a palavra Espírito, ou, melhor ainda, Espíritos maus e tereis a reprodução idêntica de todas as cenas de obsessão e de subjugação que relatamos. É incontestável que, numa região onde imperasse a idéia do Espiritismo, os doentes se diriam impelidos pelos Espíritos maus e passariam por loucos aos olhos de muita gente, caso sobreviesse uma epidemia semelhante.

Dizem que é o diabo; é uma afecção nervosa. É o que teria acontecido em Morzine, se o conhecimento do Espiritismo ali tivesse precedido a invasão dos Espíritos. Seus adversários protestariam; mas a Providência não lhes quis dar essa satisfação passageira: ao contrário, quis provar-lhes sua impotência para combater o mal pelos meios ordinários.

(…)Em nossa opinião, o mal se deve a uma causa inteiramente diversa e requer meios curativos completamente diferentes. Tem a sua fonte na reação incessante que existe entre o mundo visível e o invisível que nos rodeia, em cujo meio vivemos, isto é, entre os homens e os Espíritos, que mais não são que as almas dos que viveram e entre os quais há bons e maus.

Esta reação é uma das forças, uma das leis da Natureza, e produz uma imensidão de fenômenos psicológicos, fisiológicos e morais incompreendidos, porque a causa era desconhecida.

O Espiritismo nos dá a conhecer esta lei e, desde que os efeitos são submetidos a uma lei da Natureza, nada têm de sobrenatural. Vivendo no meio desse mundo, que não é tão imaterial quando o imaginam, uma vez que esses seres, conquanto invisíveis, têm corpos fluídicos semelhantes aos nossos, sentimos a sua influência.

A dos Espíritos bons é salutar e benéfica; a dos maus é perniciosa, como o contato das criaturas perversas na sociedade. Em suma, dizemos que uma nuvem de seres invisíveis malfazejos abateu-se momentaneamente sobre Morzine, como ocorreu em muitas outras localidades; e não será com duchas nem alimentos suculentos que serão expulsos.

Uns os chamam diabos ou demônios; nós os chamamos simplesmente Espíritos maus ou Espíritos inferiores, o que não implica uma melhor qualidade, embora seja muito diferente pelas conseqüências, considerando-se que a idéia ligada aos demônios é a de seres à parte, fora da Humanidade e perpetuamente votados ao mal, ao passo que eles são apenas as almas dos homens que foram maus na Terra, mas que acabarão por se melhorarem um dia.

Vindo a essa localidade, fazem, como Espíritos, o que teriam feito se a ela tivessem comparecido em vida, isto é, o mal que faria um bando de malfeitores. Deve-se, pois, expulsá-los como se expulsaria uma tropa inimiga.

Está na natureza desses Espíritos a antipatia à religião, porque temem o seu poder, como os criminosos não simpatizam com a lei nem com os juízes que os condenam; e exprimem esse sentimento pela boca de suas vítimas, verdadeiros médiuns inconscientes, absolutamente certos quando dizem não passar de ecos.

O paciente é reduzido a um estado passivo; está na situação de um homem dominado por um inimigo mais forte, que o constrange a fazer a sua vontade. O eu do Espírito estranho neutraliza momentaneamente o eu pessoal. Há subjugação obsessiva, e não possessiva.

Que absurdo! dirão certos doutores. Seja; mas nem por isso deixa de ser tido como verdade por grande número de médicos. Tempo virá, mais próximo do que se imagina, em que a ação do mundo invisível será reconhecida na sua generalidade e a influência dos Espíritos maus colocada entre as causas patológicas.

Será levado em conta o importante papel desempenhado pelo perispírito na fisiologia e uma nova via de cura será aberta para uma imensidão de doenças consideradas incuráveis. Se assim é, perguntarão, de onde vem a inutilidade dos exorcismos?

Isto prova uma coisa: é que os exorcismos, tais como são praticados, não valem mais que os remédios, porque sua eficácia não está no ato exterior, na virtude das palavras e sinais, mas no ascendente moral exercido sobre os Espíritos maus.

Os doentes não diziam: “Não precisamos de remédios, mas de padres santos.” E os insultavam, dizendo que não eram bastante santos para ter ação sobre os demônios. Era a alimentação de batatas que os levava a falar assim? Não, mas a intuição da verdade.

Em casos semelhantes a ineficácia do exorcismo é constatada pela experiência. E por quê? Porque consiste em cerimônias e fórmulas de que se riem os Espíritos maus, ao passo que cedem ao ascendente moral que lhe impõem; vêem que os querem dominar por meios impotentes e querem mostrar-se mais fortes.

São como o cavalo assombradiço que derruba o cavaleiro inábil, ao mesmo tempo que se dobra quando encontra seu mestre.

(…)Citamos vários exemplos da força moral em semelhantes casos; e, ainda que não tivéssemos sob os olhos um número suficiente de provas, bastaria lembrar a que exercia o Cristo, que, para expulsar os demônios, apenas ordenava que se retirassem. Comparai, no Evangelho, os possessos daquele tempo com os de hoje e vereis uma notável similitude.

(…) Por que nem todos os que fazem o mal são atingidos pela possessão? A isto respondemos que, fazendo o mal, sofrem de outra maneira a perniciosa influência dos Espíritos maus, cujos conselhos escutam, pelo que serão punidos com tanto mais severidade quanto mais agirem com conhecimento de causa.

Não creiais na virtude de nenhum talismã, de nenhum amuleto, de nenhum signo, de nenhuma palavra para afastar os Espíritos maus. A pureza de coração e de intenção, o amor a Deus e ao próximo, eis o melhor talismã, porque lhes tira todo império sobre as nossas almas.

Eis a comunicação que a respeito deu o Espírito São Luís, guia espiritual da Sociedade Espírita de Paris:

“Os possessos de Morzine estão realmente sob a influência dos Espíritos maus, atraídos para aquela região por causas que conhecereis um dia, ou, melhor, que um dia vós mesmos reconhecereis.

O conhecimento do Espiritismo ali fará predominar a boa influência sobre a má, isto é, os Espíritos curadores e consoladores, atraídos pelos fluidos simpáticos, substituirão a maligna e cruel influência que desola aquela população.

O Espiritismo está chamado a prestar grandes serviços; será o curador dos males, cuja causa antes não se conhecia e ante as quais a Ciência continua impotente; sondará as chagas morais e lhes prodigalizará o bálsamo reparador; tornando os homens melhores, deles afastará os Espíritos maus atraídos pelos vícios da Humanidade.

Se todos os homens fossem bons, os Espíritos maus se afastariam, pois saberiam da impossibilidade de os induzir ao mal. A presença dos homens de bem os faz fugir; a dos homens viciosos os atrai, ao passo que se dá o contrário com os Espíritos bons. Assim, sede bons, se quiserdes ter apenas Espíritos bons ao vosso lado.”

(Médium: Sra. Costel).

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