Conversas de Além-Túmulo: Morte do Doutor Cailleux

MORTE DO DOUTOR CAILLEUX
Presidente do Grupo Espírita de Montreuil-sur-Mer

(13 de abril de 1866 – Médium: Sr. Morin)
Evocação

Caro e venerado Dr. Cailleux,

Em vossa vida nós vos apreciávamos como espírita fervoroso e devotado. Chamado sem dúvida pela Providência a fim de implantar a doutrina em vossa região, empunhastes a bandeira altiva e firmemente, afrontando sem desfalecimentos os sarcasmos
e a perseguição; assim, o sucesso coroou vossos esforços. Não é somente o irmão em crença que hoje vimos saudar em sua partida da Terra, mas o homem de bem, o que não só pregou o Espiritismo por suas palavras, mas que soube fazê-lo amado e respeitado por seu exemplo e pela prática das virtudes cristãs. Recebei, pois, aqui a expressão de nossas mais vivas simpatias e a esperança de que vos disponhais a vir algumas vezes ao nosso meio, associar-vos aos nossos trabalhos.

Resposta– Eis-me aqui, obrigado. – Há pouco faláveis das tendências inerentes ao organismo humano. Observam-se mais especialmente as que se devem aos maus instintos, porque os homens são sempre levados a se guardar do que lhes pode ser
prejudicial ou lhes causar algum embaraço; mas as tendências para o bem muitas vezes passam despercebidas aos olhos da sociedade, porque é muito mais difícil encontrar e mostrar a violeta do que o espinho.

Não vos surpreendais se começo assim. Como dizíeis há pouco, o Espírito é o único responsável por seus atos; não pode escusar-se, atribuindo sua falta a Deus; não. Os bons e os maus sentimentos são o resultado de conquistas anteriores. Em minha vida, levado por instinto para o bem, para o alívio de meus irmãos em Deus, declino a honra de todos os vossos louvores, porque não tive dificuldade em seguir o caminho que me traçava o coração; não tive luta a sustentar contra os instintos contrários; apenas me deixei ir suavemente pela vocação de meu gosto, que me dizia bem alto: “Marcha! estás no bom caminho.” E a satisfação moral de todo o meu ser inteligente era tão grande que certamente eu era tão feliz quanto o avaro, que satisfaz sua paixão pelo ouro contemplando-o e acariciando-o. Eu vo-lo repito, não tenho mérito neste particular; todavia, agradeço vossas boas palavras, que não são ouvidas em vão por aqueles a quem são dirigidas. Por mais elevados que sejam, os Espíritos sempre sentem a felicidade de um pensamento simpático.

Não tardei a voltar da emoção muito natural, resultante da passagem da vida material à vida dos Espíritos, mas a profunda convicção de entrar num mundo mais vivo ajudou-me a voltar a mim mesmo. Não posso melhor comparar minha passagem da vida à morte senão a um desmaio sem sofrimento e sem fadiga. Despertei do outro lado ao suave toque fluídico de meus queridos pais e amigos espirituais. Em seguida vi meus pobres despojos mortais e os bendisse pelos seus belos e leais serviços, porquanto, dócil à minha vontade, em minha vida não tive lutas sérias a sustentar entre o meu Espírito e a minha matéria. Foi, pois, com satisfação que acompanhei ao campo de repouso o meu pobre corpo, que me tinha ajudado a impedir que muitos de meus co-encarnados fizessem essa viagem, que absolutamente não a teriam encarado como eu.

Perdoo a todos que, de uma maneira ou de outra, julgaram fazer-me mal. Quanto aos que se recusaram a orar por mim no templo consagrado, serei mais caridoso que a caridade que pregam: oro por eles. É assim que se deve fazer, meus bons irmãos
em crença. Crede-me, e perdoai aos que lutam contra vós, pois não sabem o que fazem.

Doutor Cailleux

Observação– As primeiras palavras desta comunicação provam que o Espírito estava presente e havia assistido às discussões da sessão. Com efeito, discutiu-se um fato notável de instinto incendiário precoce numa criança de quatro anos e meio,
relatado pelo Salut publicde Lyon. O fato, que forneceu assunto para um estudo importante, será publicado no próximo número.
Notamos também que o Dr. Cailleux não se serve dos preâmbulos ordinários dos Espíritos que acabam de deixar a Terra. Vê-se logo que não é um fazedor de frases, nem de cumprimentos. Diz obrigado e pensa que esta palavra basta para tornar compreensível o seu pensamento e que com ela se deve contentar; depois entra bruscamente no assunto, como um homem que se acha em seu terreno e não quer perder tempo com palavras inúteis; fala como se não tivesse havido nenhuma interrupção em sua existência. Dir-se-ia que o Sr. Cailleux de Montreuil tivesse vindo visitar a Sociedade de Paris.
Se declina do mérito de seus atos, é certamente por modéstia; os que fazem o bem sem esforço chegaram a um grau de adiantamento que lhos torna natural; se não têm mais de lutar hoje, lutaram em outras circunstâncias; a vitória foi alcançada. Os que têm de combater tendências más ainda estão em luta; mais tarde o bem não lhes custará nenhum esforço, pois o farão sem pensar. Por ter vencido mais cedo, o mérito não existe menos.
O doutor Cailleux é um desses homens que, como o doutor Demeuree tantos outros, honram a doutrina que professam e dão o mais retumbante desmentido aos detratores do Espiritismo

Allan Kardec. Revista Espírita, maio de 1866.

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