Conversas de Além-Túmulo: Pierre Legay, dito Grand-Pierrot

Conversas Familiares de Além-Túmulo: Pierre Legay, dito Grand-Pierrot

Pierre Legay, parente da Sra. Delanne ofereceu-nos o singular espetáculo de um Espírito que, dois anos depois de morto, julgava-se ainda vivo, dedicava-se aos seus negócios, viajava de carro, pagava sua passagem em estradas de ferro, visitava Paris pela primeira vez, etc. Publicamos hoje a conclusão desse estado, que seria difícil de compreender se não nos reportássemos aos detalhes dados na Revista de novembro de 1864.

Inutilmente o Sr. e a Sra. Delanne haviam tentado demover seu parente do erro; seu guia espiritual lhes tinha dito que esperassem, pois o momento ainda não era chegado.

Nos primeiros dias de março último, fizeram a seguinte pergunta a seu guia:

Depois da última visita de Pierre Legay, mencionada na Revista Espírita, não pudemos obter nenhuma resposta dele. Dissestes, a respeito, que quando chegasse o momento, ele próprio nos daria suas impressões. Pensais que o possa agora?

Resp. –Sim, meus filhos; a hora é chegada. Ele vos poderá responder e vos fornecerá vários assuntos de estudos e de ensinamentos. Deus tem suas razões.

P. – [A Pierre Legay] Caro amigo, estás aqui?
Resp. –Sim, meu amigo.

P.–Vedes o meu objetivo vos evocando hoje?
Resp. –Sim, pois tenho, junto a mim, amigos que me instruíram sobre tudo quanto se passa de admirável neste momento na Terra. Meu Deus, como é estranho tudo isto!

P.–Dizeis que tendes amigos, que vos cercam e vos instruem. Podeis dizer quem são?
Resp. –Sim, são amigos; mas não os conheci senão depois que despertei. Sabeis que dormi? Chamo dormir o que chamais morrer.

P.–Podeis dizer o nome de alguns desses amigos?
Resp. – Tenho constantemente ao meu lado um homem, que antes deveria chamar um anjo, pois é tão afável, tão bom, tão belo que julgo que todos os anjos devam ser como ele. E, depois, tem Didelot (o pai da Sra. Delanne), que também está aqui. Em seguida vossos pais, meu amigo. Oh! como são bons! Ah! – como tudo isso é engraçado – encontro também nossa irmã superiora. Ela é sempre a mesma; não mudou. Mas como tudo isto é curioso!
Nota –A irmã que o Espírito designa residia na comuna de Treveray, e havia dado as primeiras instruções à Sra. Delanne. Ela só se manifestou uma vez, três anos antes.
Olha! Também vós, jardineiro! (Nome familiar dado a um tio da Sra. Delanne, que jamais se havia manifestado). Mas como eu sou tolo! Estamos em casa de vossa sobrinha. Pois bem! estou contente de vos ver. Isto me deixa à vontade, porque, palavra de honra! sou transportado não sei como desde algum tempo; vou mais rápido que por estrada de ferro e percorro o espaço sem poder me dar conta como. Sois como eu, Didelot? Ele parece achar tudo isto natural, como se já estivesse habituado. Aliás, ele o faz há mais tempo que eu (morreu há seis anos) e compreendo que esteja menos surpreso. Ah! Como tudo isto é engraçado! Muito engraçado! Dizei-me, vós sabeis, meu primo, convosco estou à vontade. Pois bem! Dizei-me, então, com franqueza, o que é que se chama morrer?

r. Delanne – Meu amigo, chama-se morrer deixar na Terra o corpo grosseiro, a fim de dar à alma a libertação que ela precisa para entrar na vida real, a grande vida do Espírito. Sim, estais nela, caro amigo, nesse mundo ainda desconhecido por muitos homens da Terra. Eis-vos saído da letargia ou entorpecimento que se segue à separação entre o corpo e a alma. Vedes vosso anjo-da-guarda, amigos que vos cercam; foram eles que vos trouxeram entre nós, para vos provar a imortalidade e a individualidade de vossa alma. Orgulhai-vos e sede feliz, porque, como agora vedes, a morte é a vida. Eis, também, porque atravessais o espaço com a rapidez do relâmpago e podeis conversar conosco em Paris, como se tivésseis um corpo material como o nosso. Não tendes mais esse corpo; agora só tendes um envoltório fluídico e leve, que não mais vós retém à Terra.

Pierre Legay –Singular expressão: morrer! Mas, então, daí um outro nome ao momento em que a alma deixa seu corpo na Terra, porque tal instante não é o da morte… Eu me lembro… Mal me havia desembaraçado dos laços que me retinham ao corpo e meus sofrimentos, ao invés de diminuírem, só fizeram aumentar. Via meus filhos, disputando cada um para ter a parte que lhes cabia. Via-os sem cuidarem das terras que eu lhes deixara, então, me punha a trabalhar ainda com mais força do que nunca. Estava lá, lamentando ver que não me compreendessem; portanto, eu não estava morto. Asseguro-vos que experimentava os mesmos temores e as mesmas fadigas que quando tinha o meu corpo e, contudo, não mais o tinha. Explicai-me isto. Se é assim que se morre, é uma maneira engraçada de morrer. Dizei-me vossa ideia sobre isto e depois vos direi a minha, porque agora estes bons amigos têm a bondade de mo dizer. Vamos, meu primo, dizei a vossa ideia.

Sr. Delanne – Meu amigo: Como vos disse, quando os Espíritos deixam o corpo, são envolvidos num segundo corpo; este é fluídico; jamais o abandonam. Pois bem! É com esse corpo que julgáveis trabalhar, como em vida do outro. Podeis depurar esse corpo semimaterial pelo vosso desenvolvimento moral; e se a palavra morte não vos convém para precisar esse momento, chamai-o transformação, se quiserdes. Se tivestes de sofrer coisas que vos foram penosas, é que vós mesmos, em vida, talvez vos tenhais apegado demais às coisas materiais, negligenciando as espirituais, que interessam vosso futuro. (Ele estava muito interessado). É um pequeno castigo que Deus vos impôs para resgatar vossas faltas, facultando-vos os meios de vos instruirdes e abrirdes os olhos à luz.

Pierre Legay – Pois bem! Meu caro, não é a este momento que se deve dar o nome de transformação, porque o Espírito não se transforma tão depressa se não for imediatamente auxiliado a se reconhecer pela prece, nem esclarecido quanto à sua verdadeira posição, quer, como acabo de dizer, orando por ele, quer evocando-o. É por isso que há tantos Espíritos, como o meu, que ficam estacionários. Para o Espírito da categoria do meu, há transição, mas não transformação; ele não se apercebe do que lhe acontece. Eu arrastei, ou antes, julguei arrastar meu corpo com a mesma dificuldade e os mesmos males que sobre a Terra. Quando me desprendi de meu corpo, sabeis o que experimentei? Pois bem! aquilo que se experimenta depois de uma queda que atordoa por um momento, ou, melhor dizendo, depois de um desfalecimento, do qual nos fazem recobrar os sentidos com vinagre. Despertei sem reparar que o corpo me havia deixado. Vim a Paris, onde estou, pensando mesmo aqui estar em carne e osso e não me poderíeis ter convencido do contrário se de fato eu não estivesse morto.

Sim, morre-se, mas não no momento em que se deixa o corpo; é no momento em que o Espírito, percebendo sua verdadeira posição, é tomado de uma vertigem, não compreende mais o que lhe dizem, não vê mais as coisas que lhe explicam da mesma maneira; então se perturba. Vendo que não mais o compreendem, procura, e, como o cego que é ferido subitamente, pede um guia que, naturalmente, não vem de chofre. É necessário que permaneça algum tempo nas trevas, onde tudo é confuso para ele; está perturbado; é preciso que o desejo o impila com ardor a pedir a luz, que só lhe será concedida depois de terminada a agonia e chegada a hora da libertação. Pois bem, meu primo, é quando o Espírito se acha nesse momento que é o momento da morte, porque não sabe mais se reconhecer. É preciso, repito, que se seja ajudado pela prece para sair desse estado e é também quando é chegada a hora da libertação que se pode empregar a palavra transformação para os Espíritos de minha ordem.

Oh! Obrigado por vossas boas preces, obrigado, meu amigo. Sabeis quanto vos amava e vos amarei ainda muito mais agora. Continuai com vossas boas preces pelo meu adiantamento. Obrigado ao homem que soube divulgar essas grandes verdades santas, das quais tantos outros antes dele não se dignaram de ocupar-se. Sim, obrigado por terdes associado meu nome a tantos outros. Oraram por mim lendo algumas linhas que eu vos tinha vindo dar. Obrigado, também, a todos quantos oraram por mim; hoje, graças à prece, cheguei a compreender o seu alcance. Por minha vez, tentarei ser útil a todos.
Eis o que tinha a vos dizer e ficai tranquilos. Hoje não tenho mais dinheiro a lamentar, mas, ao contrário, tenho todo o meu tempo a vos dar.

Pierre Legay

Observação – O novo estado em que se encontra Pierre Legay, cessando de se julgar neste mundo, pode ser considerado como um segundo despertar do Espírito. Esta situação se prende à grande questão da morte espiritual, que está em estudo neste momento. Agradecemos aos espíritas que, tendo em vista o nosso relato, oraram por esse Espírito. Podem ver que ele se apercebeu disto e achou-se bem.

Fonte: Revista Espírita, conversas familiares de além túmulo, abril de 1865.

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