EDS: Coragem – Nas provações (parte 4/5)

Estudo da Semana: Coragem – Na provações (parte 4/5):

O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 28, item 42

42. PREFÁCIO. Se é do interesse do aflito que a sua prova prossiga, ela não será abreviada a nosso pedido. Mas fora ato de impiedade desanimarmos por não ter sido satisfeita a nossa súplica. Aliás, em falta de cessação da prova, podemos esperar alguma outra consolação que lhe mitigue o amargor.

O que de mais necessário há para aquele que se acha aflito, são a resignação e a coragem, sem as quais não lhe será possível sofrê-la com proveito para si, porque terá de recomeçá-la. É, pois, para esse objetivo que nos cumpre, sobretudo, orientar os nossos esforços, quer pedindo lhe venham em auxílio os bons Espíritos, quer levantando-lhe o moral por meio de conselhos e encorajamentos, quer, enfim, assistindo-o materialmente, se for possível.

A prece, neste caso, pode também ter efeito direto, dirigindo, sobre a pessoa por quem é feita, uma corrente fluídica com o intento de lhe fortalecer o moral.
(Cap. V, nos 5 e 27; cap. XXVII, nos 6 e l0.)

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Revista Espírita, novembro de 1868

Epidemia da Ilha Maurício

Na Revista de julho de 1867 descrevemos a terrível doença que vem devastando a ilha Maurício (antiga Ilha de França) nos últimos dois anos. O último correio nos traz cartas de dois dos nossos irmãos em crença daquele país. Numa se encontra a seguinte passagem:

“Peço que me desculpeis por ter ficado tanto tempo sem vos dar as minhas notícias. Certamente não era o desejo que me faltava, mas antes a possibilidade; como o meu tempo é dividido em duas partes – uma para o trabalho que me faz viver, e a outra para a doença que nos mata – tenho muito poucos instantes para o empregar segundo meus gostos.

Contudo, estou um tanto mais tranqüilo; há um mês que não tenho tido febre. É verdade que é nesta época que ela parece ceder um pouco, mas, ai! é recuar para subir mais, porque os próximos calores sem dúvida lhe vão restituir o vigor inicial.

Assim, bem convencida da certeza dessa perspectiva, vivo como posso, desligando-me tanto quanto possível das vaidades humanas, a fim de facilitar minha passagem ao mundo dos Espíritos, onde, francamente, de modo algum eu lamentaria me encontrar, em boas condições, bem entendido.”

Certo dia um incrédulo dizia, a propósito de uma pessoa que exprimia um pensamento análogo, a respeito da morte: “É preciso ser espírita para ter semelhantes idéias!” Sem o querer, fazia o mais belo elogio do Espiritismo. Não é um grande benefício a calma com a qual ele faz considerar o termo fatal da vida, que tanta gente vê aproximar-se com pavor?

Quantas angústias e tormentos são poupados aos que encaram a morte como uma transformação de seu ser, uma transição instantânea, sem interrupção da vida espiritual!

Esperam a partida com serenidade, por que sabem para onde vão e o que serão; o que lhes aumenta a tranqüilidade é a certeza não só de reencontrar os que lhes são caros, mas a de não ficarem separados dos que ficaram depois deles; de os ver e os ajudar mais facilmente e melhor do que quando vivos; não lamentam as alegrias deste mundo, porque sabem que terão outras maiores, mais suaves, sem mescla de tribulações. O que causa o temor da morte é o desconhecido. Ora, para os espíritas, a morte não tem mais mistérios.

A segunda carta contém o que segue:

“É com um sentimento de profunda gratidão que venho agradecer-vos os sólidos princípios que inculcastes em meu espírito e que, sozinhos, me deram a força e a coragem de aceitar com calma e resignação as rudes provas que venho sofrendo de um ano para cá, pelo fato da terrível epidemia que dizima a nossa população. Sessenta mil almas já partiram!

“Como deveis imaginar, a maior parte dos membros do nosso grupo de Port-Louis, que já começava a funcionar tão bem, teve, como eu, de sofrer nesse desastre geral. Por uma comunicação espontânea de 25 de julho de 1866, foi-nos anunciado que íamos ser obrigados a suspender os nossos trabalhos; três meses depois fomos forçados a descontinuá-los, em conseqüência da moléstia de vários de nós e a morte de nossos pais e amigos.

Até este momento não pudemos recomeçar, embora todos os nossos médiuns estejam vivos, bem como os principais membros do nosso grupo. Várias vezes tentamos reunir-nos novamente, mas não o conseguimos.

Eis por que cada um de nós foi obrigado a tomar conhecimento isoladamente de vossa carta, datada de 26 de outubro de 1867, à senhora G…, na qual se encontra a comunicação do doutor Demeure, que nos dá grandes e muito justos ensinamentos sobre tudo quanto sucede conosco.

Cada um de nós pôde apreciar a sua justeza, pelo que lhe concerne, porque é de notar que a doença tomou tantas formas múltiplas, que os médicos jamais puderam chegar a um acordo. Cada um seguiu um método particular.

“Entretanto, o jovem doutor Labonté parece ser o que melhor definiu a doença. Quero crer que esteja certo do ponto de vista material, pois passou por todos os sofrimentos de que se faz narrador*.

Em nosso ponto de vista espiritualista, poderíamos aí ver uma explicação do prefácio de O Evangelho segundo o Espiritismo, porque o período nefasto que atravessamos foi marcado, no começo, por uma chuva extraordinária de estrelas cadentes, caída em Maurício na noite de 13 para 14 de novembro de 1866.

Embora esse fenômeno fosse conhecido, por ter sido muito freqüente de setembro a novembro, em certas épocas periódicas, não é menos admirável que, desta vez, as estrelas cadentes foram tão numerosas que impressionaram e fizeram estremecer os que as observaram.

Esse imponente espetáculo ficará gravado em nossa memória, porque foi precisamente depois desse acontecimento que a doença tomou um caráter lamentável. Desde esse momento, tornou-se geral e mortal, o que hoje nos pode autorizar a pensar, como diz o doutor Demeure, que chegamos ao período da transformação dos habitantes da Terra, por seu adiantamento moral.

“A propósito dos calmantes recomendados pelo doutor Demeure, falastes de castanhas-da-índia, cujo emprego seria mais vantajoso que o quinino, que afeta os órgãos cerebrais. Aqui não conhecemos esta planta; mas depois da leitura de vossa carta, onde se faz menção dela, o nome de uma outra planta me veio ao espírito por intuição: é o Croton tiglium, vulgarmente chamado em Maurício pinhão-da-índia.

Empreguei-o como sudorífero, com muito sucesso, mas apenas as folhas, pois o grão é um veneno violento. Peço-vos por obséquio perguntar ao doutor Demeure o que ele pensa desta planta, e se aprova o emprego que dela fiz, como calmante, porque partilho completamente de sua opinião sobre o caráter desta doença bizarra, que me parece uma variante do ‘ramannenzaa’, ou febre de Madagáscar, salvo as manifestações exteriores.”

Se se pudesse duvidar, por um só instante, da vulgarização universal da Doutrina Espírita, a dúvida desapareceria vendo os que ela faz felizes, as consolações que proporciona, a força e a coragem que dá nos momentos mais penosos da vida, porque está na natureza do homem buscar o que possa garantir a sua felicidade e a sua tranqüilidade.

Aí está o mais poderoso elemento de propagação do Espiritismo, e que ninguém lho tirará, a menos que dê mais do que ele dá. Para nós é uma grande satisfação ver os benefícios que ele espalha; cada aflito consolado, cada coragem abatida levantada, cada progresso moral operado nos paga ao cêntuplo as nossas penas e as nossas fadigas; eis ainda uma satisfação que ninguém tem o poder de nos tirar.

Lidas na Sociedade de Paris, estas cartas provocaram as seguintes comunicações, que tratam da questão do duplo ponto de vista local e geral, material e moral.

* O Sr. doutor Labonté descreveu a epidemia da ilha Saint-Maurice numa brochura que lemos com interesse, e na qual se revela observador sério e judicioso. É um homem devotado à sua arte, e tanto quanto se pode julgar de longe, por analogia, ele nos parece ter bem caracterizado essa singular doença, do ponto de vista fisiológico.

Infelizmente, no que concerne à terapêutica, ela frustra todas as previsões da Ciência. Num caso excepcional, como esse, o insucesso nada prejulgaria contra o saber do médico. O Espiritismo abre à ciência médica, horizontes inteiramente novos, ao demonstrar o papel preponderante do elemento espiritual na economia e em grande número de afecções, nas quais a Medicina falha, porque se obstina em lhe buscar a causa somente na matéria tangível.

O conhecimento da ação do perispírito sobre o organismo adicionará um novo ramo à patologia e modificará profundamente o modo de tratamento de certas doenças, cuja verdadeira causa não será mais um problema.

(Sociedade de Paris, 16 de outubro de 1860)

“(…) Sem dúvida é apavorante pensar em perigos dessa natureza, mas, já que são necessários e não terão senão salutares conseqüências, é preferível, em vez de os esperar tremendo, preparar-se para os afrontar sem medo, sejam quais forem os seus resultados.

Para o materialista, é a morte horrível e o nada depois; para o espiritualista e, em particular, para o espírita, que importa o que acontecer! Se escapar ao perigo, a prova o encontrará sempre inabalável; se morrer, o que conhece da outra vida o fará encarar a passagem sem empalidecer.

Preparai-vos, pois, para tudo, e sejam quais forem a hora e a natureza do perigo, compenetrai-vos desta verdade: a morte não passa de uma palavra vã e não há nenhum sofrimento que as forças humanas não possam dominar. Aqueles a quem o mal for insuportável, serão os únicos que o terão recebido com o riso nos lábios e a indiferença no coração, isto é, que se julgarão fortes em sua incredulidade.

Clélie Duplantier

(Sociedade de Paris, 23 de outubro de 1868)

“(…) Entramos cada vez mais no período transitório, que deve levar à transformação orgânica da Terra e à regeneração de seus habitantes. Os flagelos são os instrumentos de que se serve o grande cirurgião do Universo para extirpar, do mundo, destinado a marchar para frente, os elementos gangrenados que nele provocam desordens incompatíveis como o seu novo estado.

Cada órgão, ou melhor dizendo, cada região será, sucessivamente, dissecada por flagelos de diversas naturezas. Aqui, a epidemia sob todas as suas formas; ali, a guerra, a fome. Cada um deve, pois, preparar-se para suportar a prova nas melhores condições possíveis, melhorando-se e se instruindo, a fim de não ser surpreendido de improviso.

Algumas regiões já foram provadas, mas seus habitantes se equivocariam redondamente se se fiassem na era de calma, que vai suceder à tempestade, para recaírem nos seus antigos erros. É uma pequena trégua que lhes é concedida, para entrarem num caminho melhor; se não o aproveitarem, o instrumento de morte os experimentará até os trazer ao arrependimento.

Bem-aventurados aqueles a quem a prova feriu de começo, porque terão, para se instruírem, não só os males que sofreram, mas o espetáculo daqueles seus irmãos em humanidade, que por sua vez serão feridos. Esperamos que um tal exemplo lhes seja salutar, e que entrem, sem hesitar, na via nova, que lhes permitirá marchar de acordo com o progresso.

Doutor Demeure

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