Fluido Espiritual como veículo do pensamento: RE, Jun. 1868

Fluido Espiritual como veículo do pensamento – Revista Espírita, junho de 1868:

FOTOGRAFIA DO PENSAMENTO.

O fenômeno da fotografia do pensamento se ligando ao das criações fluídicas, descrito em nosso livro da Gênese, no capítulo dos fluidos, para maior clareza reproduzimos a passagem desse capítulo, onde esse assunto é tratado, e o completamos com novas observações.

Os fluidos espirituais, que constituem, propriamente falando, um dos estados do fluido cósmico, são a atmosfera dos seres espirituais; é o elemento onde eles haurem os materiais sobre os quais operam; é o meio onde se passam os fenômenos especiais perceptíveis à vista e ao ouvido do Espírito, e que escapam aos sentidos carnais impressionados somente pela matéria tangível, onde se forma essa luz particular ao mundo espiritual, diferente da luz comum por sua causa e seus efeitos; é, enfim, o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som.

Os Espíritos agindo sobre os fluidos espirituais, não os manipulam como os homens manipulam os gases, mas com a ajuda do pensamento e da vontade, O pensamento e a vontade são para os Espíritos o que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem a esses fluidos tal ou tal direção; aglomeram-nos, combinam-nos ou os dispersam; com eles formam conjuntos tendo uma aparência, uma forma, uma cor determinada; mudando-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou outros corpos, os combinam segundo certas leis; é a grande oficina ou o laboratório da vida espiritual.

Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção; frequentemente, são o produto de um pensamento inconsciente; basta ao Espírito pensar numa coisa para que essa coisa se produza, como basta modular uma ária para que essa ária repercuta na atmosfera.

É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à vista de um encarnado dotado da visão psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo, na época em que foi conhecido, tivesse tido várias encarnações depois. Ele se apresenta com a roupa, os sinais exteriores, enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc., que tinha então; um decapitado se apresentará com a cabeça a menos.

Não é dizer que ele conserva essas aparências; não, certamente; porque como Espírito ele não é nem coxo, nem maneta, nem caolho, nem decapitado, mas seus pensamentos e reportando à época em que era assim, seu perispírito lhe toma instantaneamente as aparências, que deixa do mesmo modo instantaneamente, desde que seu pensamento deixa de agir.

Se, pois, foi uma vez negro, outra vez branco, ele se apresentará como negro ou como branco, segundo a dessas duas encarnações sob a qual for evocado, e onde se reportar o seu pensamento. Por um efeito análogo, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos dos quais tinha o hábito de se servir: um avaro manejará o ouro; um militar terá as suas armas e o seu uniforme; um fumante, o seu cachimbo; um lavrador, a sua charrua e seus bois; uma velha, a sua roca para afiar.

Esses objetos fluídicos são tão reais para o Espírito que é, ele mesmo, fluídico, quanto eram no estado material para o homem vivo; mas, pela mesma razão que são criados pelo pensamento, a sua existência é tão fugidia quanto o pensamento.

Sendo os fluidos o veículo do pensamento, eles nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer, em verdade, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros. Como se vê, é uma ordem de fatos toda nova que se passam fora do mundo tangível, e constituem, podendo-se assim dizer, a física e a química especiais do mundo invisível.

Mas como, durante a encarnação, o princípio espiritual está unido ao princípio material, disto resulta que certos fenômenos do mundo espiritual se produzem conjuntamente com os do mundo material, e são inexplicáveis para quem não lhes conhece as leis.

O conhecimento dessas leis é, pois, tão útil aos encarnados quanto aos desencarnados, uma vez que só elas podem explicar certos fatos da vida material. O pensamento, criando imagens fluídicas, se reflete no envoltório espiritual como numa vidraça, ou ainda como essas imagens de objetos terrestres que se refletem nos vapores de ar; ela ali toma um corpo e se fotografa de alguma sorte.

Que um homem tenha, por exemplo, a ideia de matar um outro, por impassível que seja seu corpo material, seu corpo fluídico é posto em ação pelo pensamento do qual reproduz todas as nuanças; ele executa fluidicamente o gesto, o ato que tem o desejo de realizar; seu pensamento cria a imagem da vítima, e a cena inteira se pinta, como num quadro, tal qual ela está em seu espírito. É assim que os movimentos mais secretos da alma repercutem no envoltório fluídico; que uma alma, encarnada ou desencarnada, pode ler numa outra como num livro, e ver o que não é perceptível pelos olhos do corpo.

Os olhos do corpo vêem as impressões interiores que se refletem sobre os indícios do rosto: a cólera, a alegria, a tristeza; mas a alma vê sobre os indícios da alma os pensamentos que não se traduzem ao redor. No entanto, segundo a intenção, o vidente pode bem pressentir o cumprimento do ato que lhe será a consequência, mas não pode determinar o momento em que se cumprirá, nem lhe precisar os detalhes, nem mesmo afirmar que ocorrerá, porque circunstâncias ulteriores poderão modificar os planos decididos e mudar as disposições.

Ele não pode ver o que não está ainda no pensamento; o que vê é a preocupação do momento, ou habitual, do indivíduo, seus desejos, seus projetos, suas intenções boas ou más; daí os erros nas previsões de certos videntes, quando um acontecimento está subordinado ao livre-arbítrio do homem; não podem senão pressentir-Ihe a probabilidade segundo o pensamento que veem, mas não afirmar que ocorrerá de tal maneira e em tal momento.

A maior ou a menor exatidão nas previsões, depende, além disso, do alcance e da clareza da visão psíquica; em certos indivíduos, Espíritos ou encarnados, ela é difusa ou limitada a um ponto, ao passo que, em outros, ela é limpa, e abarca o conjunto dos pensamentos e da vontade, devendo concorrer para a realização de um fato; mas, acima de tudo, há sempre a vontade superior que pode, em sua sabedoria, permitir uma revelação ou impedi-la; neste caso, um véu impenetrável é lançado sobre a visão psíquica mais perspicaz. (Ver na Gênese, o cap. da Presciência.)

A teoria das criações fluídicas e, consequentemente, da fotografia do pensamento, é uma conquista do Espiritismo moderno, e pode ser, doravante, considerada como adquirida em princípio, salvo as aplicações de detalhes que são o resultado da observação.

Esse fenômeno é, incontestavelmente. A fonte das visões fantásticas, e deve desempenhar um grande papel em certos sonhos. Pensamos que nele se pode encontrar a explicação da mediunidade do copo com água. (Ver o art. precedente.) Desde que o objeto que se vê não está no copo, a água deve fazer o trabalho de uma vidraça que reflete a imagem criada pelo pensamento do Espírito.

Esta imagem pode ser a reprodução de uma coisa real, como pode ser a de uma criação de fantasia. O copo com água não é, em todos os casos, senão um meio de reproduzi-la, mas não é o único, assim como o prova a diversidade de procedimentos empregados por alguns videntes; este, talvez, convenha melhor para certas organizações.

Retornar ao índice da letra F

Compartilhe