História de um criado – O Céu e o Inferno

Servindo a uma família de alta posição, era um moço cujos traços fisionómicos, cujo ar inteligente, surpreendiam por sua distinção. Em suas maneiras nada havia de rústico ou plebeu e, ao mesmo tempo que diligenciava bem servir aos patrões, estava longe de ostentar quaisquer servilismos, aliás muito próprios das pessoas que conhecêramos, e porque não o víssemos, perguntamos se o haviam despedido. Disseram-nos que tinha ido passar alguns dias na sua terra natal, e que lá falecera. Disseram-nos mais, que muito lamentavam a perda de tão excelente moço, possuidor de sentimentos assaz elevados para a sua posição. Acrescentaram que ele lhes era muito dedicado, dando provas de grande afeição.

Mais tarde, veio-nos a ideia de evocar esse rapaz, e eis o que nos disse ele:

“Na penúltima encarnação, havia eu nascido de muito boa família, como se diz na Terra, mas cujos bens estavam arruinados pelas prodigalidades de meu pai. Órfão muito criança, um amigo deste recolheu-me e mandou educar-me excelentemente como um filho, educação essa que me suscitou uma leve vaidade. Meu protetor, de então, é hoje o Sr. G., ao serviço do qual me conhecestes. É que eu quis expiar o orgulho, na última existência, sob a condição de criado, provando ao mesmo tempo a dedicação devida ao meu benfeitor. Cheguei mesmo a salvar-lhe a vida sem que ele o soubesse. Isso constituiu também uma provação da qual saí vitorioso e bastante confortado para não me deixar corromper num meio vicioso. Conservando-me impoluto, a despeito dos maus exemplos, agradeço a Deus a recompensa, na felicidade que hoje gozo.”

P. Em que circunstâncias salvastes a vida do Sr. G…?
R. Evitando que fosse esmagado por uma grande árvore enquanto passeava a cavalo. Eu que o seguia só, percebi a iminência do perigo, e com um grito lancinante fi-lo voltar rápido, enquanto o tronco se abatia.

O Sr. G… a quem referimos o fato, dele se lembrou perfeitamente.

P. Por que desencarnastes tão jovem?
R. Porque Deus julgou suficiente a prova.

P. Como pudestes aproveitar essa provação quando não tínheis noção da sua causa anterior?
R. Na humildade da minha condição ainda me restava um instinto daquele orgulho; fui feliz por tê-la conseguido domar, tornando proveitosa a provação que, a não ser assim, eu teria de começar. Nos seus momentos de liberdade o meu Espírito se lembrava do que fora e ao despertar lhe invadia um desejo intuitivo de resistir às más tendências. Tive mais mérito lutando assim do que se tivesse a lembrança do passado. Com essa lembrança o orgulho de outros tempos se teria exaltado, perturbando-me, ao passo que deste modo apenas tive que combater as influências nocivas da minha nova condição.

P. De que serviu terdes recebido uma brilhante educação, uma vez que na última encarnação não vos era possível lembrar os conhecimentos adquiridos?
R. Tais conhecimentos, dada a minha ulterior condição, seriam supérfluos; por isso ficaram num estado latente para que hoje eu os reencontrasse. Mas aqueles conhecimentos não me foram de todo inúteis, uma vez que desenvolvendo-me a inteligência, me incutiram predileção instintiva pelas coisas elevadas e repugnância pelos baixos e ignóbeis exemplos que ti nha à vista. Sem aquela educação, eu não passaria de um criado.

P. A abnegação dos criados para com os patrões terá por ascendente o fato de relações anteriores?
R. Sem dúvida, e ao menos é esse o caso comum. Às vezes esses criados são membros da mesma família, ou, como no meu caso, escravos da gratidão e que procuram saldar uma dívida, ao mesmo tempo concorrendo para que progridam por sua dedicação. Vós não compreendeis todos os efeitos da simpatia que a anterioridade de relações produz aí no mundo. A morte em absoluto não interrompe essas relações, que podem perpetuar-se por séculos e séculos.

P. Por que são hoje tão raros esses exemplos de dedicação?
R. Acusai a feição egoística e orgulhosa do vosso século, agravada ainda pela incredulidade das ideias materialistas. À verdadeira fé antepõe-se presentemente a cobiça, a avidez do ganho, em detrimento da abnegação. Induzindo os homens à verdade, o Espiritismo fará reviver igualmente as virtudes esquecidas.

Nada melhor do que este exemplo para evidenciar o benefício do esquecimento em relação às existências anteriores. Se G. tivesse ciência do que havia dito o seu criado, ficaria para com ele numa posição embaraçosa, nem o conservaria como criado, obstando, por conseguinte a uma provação proveitosa para ambos.

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